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Para quem está de saco cheio

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23.10.08
 
ELEGIA DA PAIXÃO DESMEDIDA

“O amor não deixa sobreviventes.” Nelson Rodrigues

Semana passada um jovem seqüestrou a ex-namorada, que acabou morrendo. Não foi a primeira vez que a população pôde acompanhar ao vivo um crime no caldeirão da fervura urbana. Tampouco é inédito que todos os meios de comunicação ponham foco num único fato devido à audiência certa. No mesmo conjunto, seqüestro com morte por ação questionável da polícia também não é novidade. Não me interessa a (falta de) ação das autoridades etc. No mesmo dia em que acabou o incidente, vi que os civis e militares estavam se batendo em São Paulo, então é melhor deixá-los assim e assumirmos que não dão conta de pôr ordem na realidade. Se a polícia não se entende, não sou eu quem vai entendê-los.

No entanto, algo nesse episódio me comoveu de forma inesperada, como se ali estivessem contidas algumas senhas e chaves para o entendimento desse mundo caduco. Alguns aspectos são bem simbólicos em tudo o que ocorreu, que para mim caracterizam o caso como uma tragédia das mais clássicas.

Essa rede simbólica já começa com os nomes dos envolvidos, cuja etimologia aponta para alguma possibilidade de atribuir sentido ao fato. Eloá, nome de origem hebraica, é uma das formas de se pronunciar o nome de Deus; Lindemberg era um nome comum entre nazistas; a amiga Nayara, em grego, significa “aquela que comanda”.

As tragédias gregas se baseavam na idéia de que o herói ultrapassou o seu métron , que seria o limite de cada um, e cometia a hybris , um tipo de orgulho desmedido. Por isso, deveria sofrer a hamartía , a punição divina, que no caso do teatro clássico possuía um fim didático, servindo para mostrar ao povo que certos espaços não podiam ser ultrapassados.

Terminado o namoro, Lindemberg não teve a experiência necessária para entender que o amor acaba. Embora sete anos mais velho, amou Eloá de forma imatura. Vítima da perspectiva adolescente, via o mundo como possibilidade ilimitada, o tempo como distância de eternidade e a paixão como mergulho infinito. O amor sempre exige a transcendência, quer expansão. Uma vez que não seja possível expandi-lo via conquista, lança-se mão dos artifícios de domínio.

Essa hybris de Lindemberg o fez tomar por força o seu objeto de devoção e culto, sua manifestação divina encarnada numa jovem. Mesmo sem antecedentes criminais, foi necessário entrar no território do comportamento criminoso pelo descontentamento com a rejeição. Lindemberg invadiu o espaço da liberdade alheia para impor os seus desejos. O amor se converteu na sua face mais doentia, a da falsa sensação de posse – porque ainda hoje há quem creia na idéia de se ter algo ou alguém como um objeto -, em detrimento da cessão e da troca.

Ao matar Eloá, Lindemberg assassinou o que o aproximava de Deus. Quis dominar o que não se presta a ter dono: Deus e a mulher. À amiga Nayara, aquela que comanda, restou a tentativa de mediar o conflito, tendo exercido de fato a indevida função de negociadora, porém foi silenciada com um tiro na boca. Impotente, a polícia silenciou o seqüestrador com balas falsas.

Apontar culpados é antes procedimento jurídico ou necessidade de justiça do que se assumir que nesse tipo de caso todos acabam sendo vítimas. Parece que Lindemberg não sabe ainda que sua ex-namorada morreu. Quando souber, vai sentir a sua hamartía , e provavelmente terá a dura ciência de que nunca mais poderá amar e ser amado de forma minimamente sadia.

É preciso lucidez e maturidade para se despedir, inclusive do amor. Lindemberg, Eloá e Nayara nos fazem lembrar que o aspecto trágico da condição humana nos situa na dimensão da finitude, e que esse é o intervalo que foi reservado para a manifestação da nossa intensidade.

E por não compreender o tempo da ausência, esse rapaz nem pôde aprender que o amor também é abnegação – e às vezes requer deixar a moça ir embora para sempre.


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16.10.08
 
Fui professor um tempo; antes, durante e depois disso, aluno. De docente, ficou a experiência difícil de tentar ensinar a pensar, ler e escrever. Isso só me fez admirar mais ainda os professores, que lutam mesmo e, para citar o poema do João Cabral que segue abaixo, muitas vezes tiram leite de pedra.

Tive sorte de esbarrar com excelentes ao longo da vida, e é a eles que devo o fato de ter começado a escrever. Como não cresci cercado de livros, foram pessoas como a doce (tia, é como se chamava) Edna (4ª), a esperta Angélica (8ª), o sagaz poeta Roberto Pontes e a empolgada Luiza (graduação) que me educaram para a leitura e abriram espaço. Sem eles, talvez eu me tornasse uma das muitas pessoas com potencial não desenvolvido e fadado a se converter em frustração em certo ponto da vida. Talvez estivesse no serviço militar. Talvez estivesse em subempregos. Talvez estivesse morto.

Como autor, tenho participado de uma gratificante experiência, que é visitar escolas para conversar e realizar oficinas com alunos e professores. A despeito do que se diz, tenho visto muitos desses profissionais empenhados em fazer o que a educação significa etimologicamente: conduzir para o mundo (ex ducere), via leitura. Por esses dias, fui conversar com algumas dezenas de professoras que cuidam das salas de leitura de escolas públicas. Não me sinto exemplo de nada ou de ninguém, mas tive de dizer o quanto o trabalho delas pode mudar a trajetória de uma pessoa. Foi um grande momento lembrá-las de que têm uma responsabilidade imensa: aquela que, como disse o Italo Calvino, consiste em tentar reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e abrir espaço.

Parabéns aos colegas professores. E obrigado.

A educação pela pedra
João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


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10.10.08
 


Esqueci de postar: saiu no Globo em 21/09, na página LOGO, este soneto que o Arnaldo Bloch me pediu sobre a crise em Wall Street.

A BURGUESIA FED

Criou-se um Big Bang no pregão!
E no buraco negro financeiro
Partícula invisível de dinheiro
Chocou-se com a dadívida, explosão

Que se desdobra numa reação
E em pouco tempo traga o mundo inteiro.
Pelo redemoinho no bueiro,
Preenchem com buraco a depressão.

Contra esse apocalipse? Tarja preta,
Socorro que até deixa uma gorjeta,
Dando ao mercado um ar de beatitude.

E é bom lembrar que mesmo o Titanic
Buscava tanto o fundo, e foi a pique:
Só faturou bilhões em Hollywood.


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