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Para quem está de saco cheio

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31.12.08
 
O GRÃO DA AMPULHETA

O que se foi já foi, embora esteja
Tão perto, aqui do lado, cutucando
A beira da memória, justo quando
Pensamos ter vencido essa peleja.

O que passou, passou, mas ainda passa.
E por passar ainda, permanece
Um fardo, um cheiro, um grão que amadurece
À medida que o tempo se esfumaça.

É um ano novo, um novo calendário,
Novo verão - porém a mesma aurora
De um futuro que sempre se inicia.

E é assim que o tempo passa: imaginário.
Como quem morre e nasce a cada dia,
Como quem chega enquanto vai-se embora.

Feliz 2009, galera!

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22.12.08
 
Vai um poema que fiz há alguns anos sobre o assunto atual. Sou daquele grupo dos que ficam meio ressabiados nessa época, mas não deixa de ser uma oportunidade para se agradecer pelo que se tem e pedir força para conquistar o que não se tem.

NÓS, OS CRUCIFICADOS


E foi anunciado que um tipo azul de rosa tímida eclodiu por esses dias
- Azul porque do céu longínquo, e o mesmo da tristezas inexpugnáveis -
Que na redenção íntima e universal comportaria o peso dos aflitos
E em cuja face repousaria eternamente o sumo insidioso dos pecados.
Mas eis que num repente desabrocha a inssureição das madrugadas
E o canto dos perdidos, na clemência dos abismos, das desgraças
Se eleva em tom doce-sulfúrico nos desertos dos teus dias.

Percebes? As vozes todas gritam gritam gritam até virarem um clarão
E se te prometem rio cobrem teu deserto com barragem
E as tuas cidades destruídas com a ânsia de fluência choram inutilmente sepultadas.

Repara na tua carne, tuas mãos, teus dedos: pouco lhe cabem
E ainda assim permaneces responsável pelo imenso fardo
Das noites e dos dias e da sensação perene de abandono
E a fé como um suspiro procrastinador dos desalentos
Te imprime a cada ciclo a nódoa taciturna e lenta.

Silenta.
O que lhe cabe é cruz, mas repara que ela tem o mesmo formato de tua mão.
E caminha, imaginando que nela repousa a lembrança de uma rosa azul.
E na firme experimentação de que o teu silêncio é ouro, incenso e mirra,
Renascerás por sobre as máculas como um tipo infinito de ternura.

Comentários:
15.12.08
 


CAPITU

Enquanto procurava um documento em disquetes antigos achei um arquivo de 1999 (do século passado!) com exercícios de quando fazia oficina literária. No caso, a idéia era escrever uma carta ao Machado de Assis.

Fiz meus agradecimentos ao Bruxo - inclusive porque minha turma de formatura se chamou Brás Cubas - e encerrei a carta com um soneto sugerido no "Dom Casmurro". Explico: em dado capítulo do livro, Bentinho está no seminário e, com saudades, tenta escrever um soneto para Capitu, mas só consegue fazer o primeiro e o último versos. Termina o capítulo dizendo que deixa a cargo de algum desocupado preencher o soneto.

Então exerci a função de desocupado. Vai aí.


Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
És flor que baila ao vento, inebriada.
Em sonho a tua presença é iluminada,
Tão cheia de beleza e de ternura.

Tu vens me visitar na noite escura,
E sinto uma emoção desconfiada.
Parece, Capitu, que não é nada,
Talvez só esse excesso de candura.

Pensando bem, tu és como uma rosa:
Possuis essa aparência majestosa,
Mas guardas sob as pétalas espinho.

E penso cá comigo: “Vai, Bentinho,
Segura essa tua rosa, a tua navalha.
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!”

Comentários:
8.12.08
 


Já aconteceu, eu sei. Mas a correria não me permitiu atualizar o blog.

Participei da Primavera dos Livros dia 30/11, na mesa-redonda "Machado de Assis: as diferentes faces do Bruxo do Cosme Velho", e depois no Festival de Poesia, que homenageou Vinicius de Moraes.

Aliás, dias antes escrevi um soneto especificamente para ler no evento, meio à la Vinicius. Mas como estava voltando da Feira do Livro de Porto Alegre, acho que as duas últimas estrofes ficaram com cara de Quintana...

SONETO DE AMOR COM PONTO E VÍRGULA

O amor não me ensinou a ser maduro;
Também não me deixou mais inocente;
Não me nomeou escravo ou independente;
Antes, trancou-me livre no seu muro;

O amor não me tornou um ser mais puro;
Mas me sujou de vida, e fui em frente;
Mostrou ser soberano quem o sente;
E assim me deixou, trôpego e seguro;

O amor desenrolou-se de um novelo,
Em linhas que desfio e, sendo tinta,
Costuro em borda e tento compreendê-lo;

E só resta dizer: coisa indistinta,
Pensar o amor é como ver a lua,
Que mesmo quando acaba continua...


(Vôo 3416, sobre o litoral do Sul, 05/11/08, manhã.)




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