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26.1.09
ADÉLIA ME PÔS PARA DORMIR Hoje à tarde vi Adélia Prado na televisão. Depois de almoçar com a família, prostrei-me no sofá e de repente me vi zapeando, até que o dedo parou tão logo visse a mineira, acredito que a nossa mais importante escritora em atividade. Falava de coisas extremamente simples e essenciais, como o fato de a arte ser voltada para o sentimento, não para a lógica, e que a poesia existe porque nós não nos contentamos com a instância ordinária das coisas: precisamos do extraordinário. Porém, como tivesse comido feijoada com a voracidade dominical, e os meus recursos internos se concentrassem na difícil extração digestiva daqueles nutrientes inusitados, fui adormecendo. E dormi um sono em que Adélia continuava sua conferência. No surrealismo desse estado, em vez de falar para a platéia numerosa e atenta do programa gravado, a poeta conversava apenas e diretamente comigo. E era como se me lembrasse de coisas das quais já havia me esquecido, ou então alertava para que não as esquecesse. Aquele ensinamento íntimo abarcou desde questões técnicas da escrita até a necessária manutenção de um olhar que retirasse literatura da vida, mas que depois não deixasse de devolver para a mesma vida o que eu viesse a construir ou modificar pela arte da palavra. Em dado momento, devo ter balbuciado que não estou mais escrevendo poemas porque fiquei cansado, embora depois talvez volte. Em vez de me fazer refém da minha própria inspiração e sugerir uma continuidade forçada, ouvi uma frase que dizia algo como “o tempo da poesia é um tempo diferente e deve ser respeitado”. Foi um alívio que me fez despertar, no momento final do programa, quando ela começava a ler seus poemas. Adélia chora ao ler alguns dos seus textos. Quem esteve na Festa Literária de Parati ano retrasado certamente conferiu e partilhou com ela essa experiência de se emocionar diante da beleza pura e aguda das palavras. Pelo que me lembro, foram raros os que não choraram também, mesmo os que, como eu, só puderam assistir pelo telão. Hoje eu não chorei, mas sorri enquanto me esticava no sofá feito um gato preguiçoso. Levantei-me e fui conferir minha mãe e meu irmão tirando um cochilo, cada um no seu canto. Olhando-os assim, pensei, ainda sonolento, que eles são o meu grande poema. E agora, madrugada de domingo para segunda, antes de entrar no sono para começar uma nova jornada rumo ao cotidiano prático e ordinário, rogo para que as doces palavras de Adélia Prado voltem a frequentar meus sonhos e os transcenda rumo à vida. E que aquela espécie de acalanto nos inspire a buscar o extraordinário ao longo de todo o dia. Comentários: 22.1.09
DEZ QUILÔMETROS MAIS PERTO Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar. Antonio Machado Após estímulo dos colegas de trabalho, participei da corrida de S. Sebastião, na última terça-feira. Convém mencionar que não sou atleta e só frequento academia por recomendação médica, inclusive pela implicante suspeita de que as bicicletas e esteiras que não saem do lugar podem conferir uma metáfora da vã trajetória humana. Mas se o ambiente bate-estaca da marombagem não me interessa tanto, o lance da corrida foi surpreendente pacas. Não posso deixar de lado o fato de que correr no dia do padroeiro da cidade também foi um tipo de procissão, só que mais rápida e com um grau maior de sudorese. Além do privilégio de se estar numa das paisagens mais belas do mundo, correr no (e pelo) Rio de Janeiro é uma possibilidade para que sejam exercitados não só os joelhos, mas também alguns princípios básicos de civilidade. Ao contrário do que eu pensava, essas corridas agora me parecem uma atividade mais cooperativa do que competitiva, que encerra uma necessária visão de mundo hoje. Em termos de ideologia talvez seja uma contrária à da era Big Brother - segundo a qual, numa simulação de vida, o indivíduo ganha um milhão ao eliminar todos que o cercam. Na corrida, o pessoal dá força para que outros compartilhem a chegada no final daquele ciclo. Ouvimos a todo tempo palavras de incentivo e superação, e, quando nos damos conta, estamos fazendo a mesma coisa pelos outros. Numa dessas é que nos deparamos com figuraças, como os corredores fantasiados e mesmo um senhor que passou por mim quando, alertado pelas minhas parcas limitações cardiorrespiratórias, já pensava em reduzir o ritmo. Sem deixar que eu parasse, disse que sempre corre, salta de asa delta, pratica queda livre, mergulho e – o mais difícil e árduo desafio – já se casara seis vezes. Por coincidência, era aniversário dele: setenta e um anos. Em tempos de Obama e a consequente onda de renovação, não custa fechar este breve relato com a frase do seu pai histórico, Martin Luther King Jr: "Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.” E é para frente que eu sigo. Não sei bem para onde, por que ou até quando, mas sei que estou dez quilômetros mais perto. Comentários: |