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Para quem está de saco cheio

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2.3.09
 
Minha amiga Aline pediu uma crônica sobre a Reforma Ortográfica para trabalhar com os alunos dels. Eis:

A LÍNGUA QUE SE MUDOU

Tenho lido alguma coisa de especialistas sobre a Reforma Ortográfica, bem como acompanhado as manifestações de amigos e conhecidos, usuários comuns da língua portuguesa. Para muitos desses, a razão da mudança se deu por burocracias de velhinhos eruditos, falta de preocupação oficial com coisas realmente importantes – como saúde, segurança e, acho irônico, educação – ou até mesmo um esquema articulado por editoras para vender novos dicionários.

Ouço falar dessa reforma há mais de dez anos, inclusive quando ainda estudava Letras. Na época, decorei o que seria mudado, como se quisesse estar sempre a par das atualizações linguísticas, mas como Portugal e outros países não o aprovaram, esqueci o assunto e voltei a decorar poemas – estes sim, reformadores da linguagem.

Estou confuso ainda com o uso do hífen em alguns casos, sem saudade nenhuma do trema e indiferente a determinados acentos. Ainda que nem sempre com literatura, trabalho escrevendo, e por isso é necessário saber como se expressar oficialmente. Imprimi um quadrinho que resume as principais mudanças, o qual tem dado conta enquanto não me acostumo com a nova cara de uma ou outra palavra.

Para a grande maioria dos usuários do vernáculo, essas reformas ortográficas pedem apenas isso mesmo: que aceitemos não nos acostumar o tempo todo. Não me lembro onde li que a língua é um tipo de casa onde a gente mora. Mudar as palavras gera um estranhamento parecido com aquele de quando se mudam móveis de lugar. Apenas a mobília, sem obras que mexam na estrutura da construção. Depois de passar o dia inteiro na rua, tudo de que precisamos é o lar, um espaço no qual tudo será reconfortante e conhecido. Mas um súbito espanto nos assola quando no lugar da mesa está um sofá, ou que é possível ver uma parede onde antes havia um guarda-roupa, ou que a geladeira cinicamente trocou de lugar com o fogão. Com o tempo, a língua e a casa já serão facilmente reconhecíveis. Até que seja preciso mudar de novo.

Por isso é que as colmeias, os tranquilos, os voos, os micro-ondas, os paraquedas e tantos outros indivíduos são estranhos até para o processador de texto do computador, que teima em achar que sabe tudo. Sabe nada.

Acredito que, se as palavras e os móveis modificados nos pedem tempo, vamos dar esse tempo para eles, sem excesso de preocupação em cometer uma ou outra gafe. Eu não tenho medo de escrever errado. Acho que tenho mais medo é de não ter o que e para quem escrever, mesmo dominando todas as regras e macetes. Aí seria como mudar os móveis e não receber nenhuma visita. (E como há por aí tantas casas inabitadas...)

Com a Reforma Ortográfica, agora todos os falantes de português devem escrever de um jeito só. Isso trará benefícios culturais, políticos e econômicos em algum tempo. Mas não nos esqueçamos de que a casa da língua é a boca e a melhor unificação linguística ainda é o beijo.


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